terça-feira, 22 de dezembro de 2009

joelhos

para o inescrituras

a lição do ano era não se levar tão a sério, então ela desenhou com o batom vermelho – russian red, m. a. c., acho – um olho e metade de um sorriso em cada joelho, de forma que, quando os juntava, eles formavam a figura de um rosto sorrindo. assim, mais ou menos: :) . no ônibus, a caminho do colégio, sentou-se no primeiro banco, de frente para a roleta. aprumou a saia curta e cruzou as pernas. escolheu as vítimas. o primeiro que veio foi esse cara meio velho, um senhor de bermuda de sarja com cinto, camisa de botões amarelo ovo de mangas curtas, arrumada por dentro da bermuda, barba branca vistosa, óculos de aros finíssimos e chapéu panamá. não, melhor, chapéu tipo aquele que o woody allen usa nos sets. daí ela descruzou as pernas e juntou os joelhos. os olhos do velho foram imediatamente atraídos por aquele movimento (como os de qualquer homem) e ela notou o exato momento em que ele percebeu o smile formado pelos joelhos. ele pareceu levemente perturbado e, depois, sem nem se dar conta, porque tudo aconteceu em segundos, sorriu de volta, franzindo as sobrancelhas, e seguiu adiante. ela também sorriu. estava se divertindo. e a viagem estava só começando.

minhoca

ela dormia muito. por isso eu a chamava de minhoca, como abreviação de ‘dorminhoca’.

ela usava expressões como 'duma figa' e 'fazer fita' como se elas tivessem sido inventadas anteontem. era estranho, mas charmoso.

embora fosse bonita de doer – com um sorriso capaz de fazer as calotas polares derreterem sozinhas – ela conseguia, quando desejava, se transformar numa réplica quase perfeita do garth de
wayne's world (aquele que vivia falando: 'party on!' e 'excellent!')

quando estava tentando se lembrar de alguma coisa, ela fazia barulhinhos quase inaudíveis com a boca. algo entre um estalar e um sibilo. era tão encantador que você ficava torcendo para ela não se lembrar nunca.

quando ficava indignada, ela pousava as mãos nas cadeiras e ficava parecendo uma super-heroína de histórias em quadrinhos.

ela imitava como ninguém o pica-pau da fase maluco-com-polainas.

ela não conseguia comer uma trufa inteira.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

'rebeldia'!

em tennessee, oitava faixa do disco bright flight, dos silver jews, o grande david berman canta: punk rock died when the first kid said/ ‘punk’s not dead, punk’s not dead’.

***

num domingo de manhã, eu caminho pelas calçadas do bairro da glória, com fones de ouvido e óculos escuros, os olhos passeando pelas barraquinhas de uma feira de artesanato. capto alguma coisa com a visão lateral. tiro os fones a tempo de ouvir um camelô me gritar cheio de fúria: “I DON’T GIVE A FUCK ABOUT IT!”. assim. desse jeito, no inglês correto. depois ele se acalma e senta no chão, desolado.

***

festa de final de ano na firrrma. ensaio movimentos descoordenados na pista de dança junto com os coleguinhas de trabalho. fingir que está dançando é o mesmo que dançar, certo? ao som dos primeiros acordes do que o que meus sentidos entorpecidos pelo álcool reconhecem como sendo “uma música dos titãs”, começo a gravitar em direção ao bar. do balcão, noto que se trata de b
ichos escrotos e observo uma massa de empregados e patrões berrando juntos: “VÃO SE FODER!”. como se não houvesse amanhã. mas haverá.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

a mente prega peças

estou desesperado. minhas mãos percorrem o interior da minha mochila, frenéticas, apalpando uma variedade de canetas, papéis e bugigangas sem utilidade. pareço uma mulher histérica procurando um prendedor de cabelo, mas sou só um homem com mau hálito. não, sou o homem mais neurótico do mundo achando que está com mau hálito. o que é infinitamente pior. veja, lá vou eu, atravessando as ruas do flamengo, sentido jardim botânico, quarenta minutos atrasado pro trabalho, com fones de ouvido, óculos escuros e um gosto amargo na língua, rumo às horas mais vazias do meu dia. estou sentado no meio do ônibus, assento no corredor. hoje é um desses dias que fazem a fama do rio de janeiro, ridiculamente ensolarado e colorido. minhas roupas são mais escuras e menos leves do que eu gostaria, e me sinto meio deslocado. tudo isso porque levantei com pressa, sem tempo pra nada, da cama em direção à porta, depois de uma noite praticamente em claro, tomando litros de café e lutando para dar conta de trabalhos inacabados. saí de casa tão atrasado que nem escovei os dentes. então ela pega o ônibus em botafogo. corpo incrível, cabelos negros soltos, camiseta branca curta, cruelmente cobrindo a fronteira do umbigo. as palavras ‘seios pequenos e pontiagudos’ se plantam na minha mente num estalo, escritas com letras alaranjadas, fonte helvetica. ela não me vê. penso em acenar, mas tento fazer isso ao mesmo tempo em que tiro os óculos e os fones de ouvido, e me faltam mãos. poucas cadeiras à minha frente há dois lugares vagos. ela senta perto da janela. antes que eu consiga pensar em me mover, um velhinho passa pela roleta e senta ao lado dela. pelo reflexo da televisão suspensa por um suporte no teto do ônibus, vejo que ela está de olhos fechados, com a cabeça repousada no encosto da cadeira, um meio sorriso nos lábios. Mas talvez eu esteja vendo demais. o velhinho tem cara de sonso. odeio mentalmente o velhinho. tudo bem, vamos descer no mesmo ponto, vamos os dois para o mesmo lugar. a caminhada do ponto até o trabalho é longa o suficiente pra começar uma conversa. está tudo bem, tudo sob controle. aí lembro que não escovei os dentes. sou dominado por um pânico repentino e por mais que eu saiba o quanto estou sendo idiota, não consigo sequer pensar direito diante da perspectiva dela perceber que estou com mau hálito. sopro contra a palma da mão e tento detectar algum sinal de mau cheiro, mas meu olfato e meu paladar são deficientes desde criança, é uma maldição. começo a vasculhar os bolsos e a mochila a procura de uma bala, um chiclete, até uma aspirina serve, qualquer coisa que eu possa mastigar pra disfarçar o bafo, que na minha imaginação a essa altura já equivale ao de um dragão milenar, o último de sua linhagem, velho, cansado e com os restos de cavaleiros e caçadores preso entre os dentes. não acho nada na mochila nem nos bolsos. nenhum vendedor irritante entra pra vender balas. poderiam estar vendendo, mas devem estar roubando. o ônibus pára. hora de descer. ela se encaminha para a porta. então minha mão esbarra em algo no interior da mochila. um bombom. um bombom que roubei da mesa da secretária do consultório do dentista na noite anterior e que, deus seja louvado em toda a sua gloriosa não-existência, é recheado com licor de menta. desembrulho o papelzinho colorido com sofreguidão e jogo o bombom inteiro na boca, não há tempo para requintes. na calçada, eu digo seu nome. ela se volta e me vê. abre um sorriso que combina com o mundo e diz que não tinha me visto no ônibus. o bombom derrete na minha boca, o licor de menta molha minha língua e uma sensação de alívio se espalha pelo meu coração como um bálsamo.

medida

tudo que ficou no apartamento me lembrava dela. um dia olhei para a banqueta do bar e vi um par de pernas.

hora de tomar uma providência. sentei na banqueta e chorei. uma hora e quinze minutos. comigo é assim.

deus sabe que me livrar das coisas não é nem de longe minha especialidade, mas uma vez na vida você tem que fazer o que você tem que fazer.

sumi com o sofá, o abajur, as luminárias, o criado mudo, os espelhos, o guarda-roupas, a mesa de centro, a cama, os armários, a geladeira, o fogão, os talheres e as louças.

só não consegui me livrar dos livros.

duas estantes cheias, do chão até o teto, para eu me livrar de mim mesmo por algum tempo.

sábado, 18 de julho de 2009

harper e eu

sempre gostei dos livros de ross mcdonald estrelados por lew archer, o detetive socrático, como [quem mesmo? paulo francis?] o definiu uma vez. em 1966, o primeiro deles – the moving target – ganhou uma adaptação para o cinema com direção de jack smight e roteiro de william goldman. chama-se harper. é um bocado divertido e nem um pouco fiel à obra original, com paul newman muito à vontade no papel de [adivinha?] harper, um detetive particular muito mais cool e debochado que personagem no qual foi inspirado. lembrei do filme outro dia e o baixei.


começa com harper acordando de manhã no escritório minúsculo abarrotado de quinquilharias, com uma ressaca tão forte que sua primeira providência é despejar cubos de gelo no fundo da pia, enfiar a cara e abrir a torneira. em seguida, ferve a água para fazer café. improvisa um coador com uma folha de papel ofício, mas se dá conta de que o pó acabou. para e pensa um minuto, desconsolado. depois, vai até o cesto de lixo e vê, na superfície, o coador do dia anterior, ainda com um pouco de pó. para e pensa um minuto de novo. então pega o coador do lixo e derrama a água fervendo. na tomada seguinte, toma um gole de uma caneca gigante de café. o gosto não é bom. ele faz uma careta. mas, vida que segue, sai pra trabalhar.


daí que, fora a parte sobre parar e pensar um minuto, essa cena inicial é a metáfora perfeita para a minha vida.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

esquece, não pensa mais

dormir não ocupa uma posição elevada no ranking de coisas que não sei fazer direito na vida. está várias posições abaixo de abordar mulheres, lavar o banheiro e natação, por exemplo. desde a semana passada, porém, das minhas inaptidões é a que mais tem me frustrado.


é que não sou bom nem consigo ter prazer no negócio. começa que é raro eu me convencer a ir dormir cedo. na verdade, já sou bem refratário à simples idéia de ‘ir dormir’. também não pego no sono rápido, demoro um tempão pensando na ‘vida’ e, pavor dos pavores, começo a fazer distinções chatíssimas tentando decidir o que fazer em relação às coisas sobre as quais não se pode fazer nada. exatamente como faço quando estou acordado. menos mal que são distinções chatas o suficiente para em algum momento me dar sono.


depois que adormeço, não consigo atravessar a noite sem acordar várias vezes para caminhadas inúteis do quarto para a cozinha e vice-versa. quase sempre acordo cansado no dia seguinte e nunca saio do quarto sem antes ter levantado e voltado para a cama umas quatro vezes. e não me lembro quase nunca do que sonhei, então sequer me divirto um pouco. meu travesseiro não é um portal para um mundo mágico e misterioso, com naquela música dos silver jews.


sei que um monte de espíritos pro-ativos faz pouco da atividade de dormir e começa a salivar diante da oportunidade de sacar aqueles clichês todos. coisas como ‘tanta coisa acontecendo no mundo e eu perdendo tempo de bobeira dormindo’ ou, muito pior, ‘vou ter tempo o suficiente pra dormir quando morrer’.


para me consolar da minha incompetência em dormir apropriadamente, eu até finjo de vez em quando que não me importo, mas a verdade é que na semana passada consegui me forçar a ir dormir em um ou dois dias e fui razoavelmente bem sucedido na coisa toda. e experimentei uma sensação que me faz lamentar muito não ser capaz de manter o bom aproveitamento com regularidade.


veja, não é que eu tenha conseguido usufruir das lendárias vantagens físicas que o sono proporciona. longe disso, ainda não posso confirmar por experiência como deve ser bom ter disposição para trabalhar ou não ter olheiras nem a cara amarrotada. e, sobretudo, como deve ser ótimo raciocinar com clareza. aposto que você também gostaria que eu fosse capaz disso, a essa altura.


estava falando de outra dádiva que uma boa noite de sono – desde que não seja induzido por alcóol ou remédios – nos oferece: perspectiva. ou sei lá como chamar. sei que estou procurando chifre em cabeça de boi [é assim que fala?], querendo descrever uma coisa que não existe, essa sensação de distanciamento que experimento se consigo dormir direito nas horas em que me sinto deprimido ou ansioso ou qualquer outra condição que em geral nos leva a fazer besteira.


nem tanto enquanto estou dormindo, mas naqueles minutos, talvez segundos, antes de despertar completamente, durante os quais tenho a impressão de que nada é mesmo tão importante assim e enxergo com nitidez toda a pompa ridícula dos meus atos e pensamentos na noite anterior. dentro dessa bolha de lucidez, eu tenho a impressão de estar entendendo meus problemas em primeira mão e sinto alívio ao perceber que, no fim, eles não eram nada demais.


bom, é claro que eram. é tudo ilusão, eu já tinha falado aí em cima, nem vem. mas, pelo menos, é uma boa ilusão, diz aí. eu não me importaria em passar mais vezes por isso. é o único momento em que consigo fazer o que aconselha o verso daquela música antiga do arnaldo baptista: ‘esquece, não pensa mais’. eis duas coisas que acho extraordinariamente difíceis de realizar acordado.